A expansão do futebol pelo Reino Unido e pelo mundo

A criação das Regras do Jogo foi vital para a popularização do futebol, especialmente diante do contexto vivido na segunda metade do Século XIX. O esporte era difundido como uma política pública no Reino Unido, seguindo a corrente do darwinismo. A atividade física servia como ferramenta à saúde física e a transmissão de lições morais, adotado amplamente nas escolas. Ao mesmo tempo, com a Revolução Industrial plena, o operariado ganhava relevância como classe e passou a contar com alguns (poucos) direitos. O futebol era a recreação que diminuía as preocupações dos patrões com greves e motins de seus trabalhadores.

A Football Association foi útil para a expansão destas frentes. Tanto para padronizar os jogos entre diferentes escolas quanto por permitir os confrontos de times de cidades cujas distâncias eram encurtadas pela crescente implantação de ferrovias. O primeiro campeonato do mundo surgiu em 1867, a Copa Youdan, realizada em Sheffield. Já o primeiro torneio da FA nasceu em 1871: a Copa da Inglaterra, disputada basicamente por clubes de Londres naquela edição – o Queens Park, da Escócia, era a exceção. E, no ano seguinte, o futebol como instrumento nacionalista surgiu a partir do primeiro jogo internacional, entre Inglaterra e Escócia.

A competitividade dos campeonatos passou a alimentar a gana dos times pelos melhores jogadores. As fábricas passaram a empregar operários apenas pelo talento no futebol, incrementando os salários pela produtividade em campo. Diante dessa realidade, os times do norte britânico, fabris, não demoraram a desafiar a hegemonia das escolas londrinas, com bases aristocráticas. A consequência inevitável disso foi a abertura ao profissionalismo, em 1885, que fomentou a criação da Football League três anos depois e a estabilização do futebol como um elemento social importantíssimo na sociedade britânica.

E, enquanto o futebol se massificava no Reino Unido, o Imperialismo Britânico impulsionou sua prática em outras partes do mundo. Na Europa continental, os primeiros clubes de diversos países foram fundados por imigrantes ou marinheiros britânicos: Lausanne Football and Cricket Club (Suíça), Kjobenhavns Boldklub (Dinamarca), Dresden English Football Club (Alemanha), Recreativo de Huelva (Espanha) e Genoa Cricket and Football Club (Itália). Em Portugal, a introdução do esporte foi feita por estudantes que voltavam da Inglaterra. Já na França, a expansão no interior do país se deu graças aos professores de inglês.

Da mesma forma, o futebol era levado pelos britânicos a outros continentes, tanto pela influência econômica quanto pela política. Nos Estados Unidos, o impacto foi imediato, apesar da difusão também de outros esportes. Argentina e Uruguai estiveram entre os primeiros países a contar com o futebol organizado, através dos trabalhadores de linhas férreas e dos marinheiros que aportavam em Buenos Aires e Montevidéu. No Brasil, foi Charles Miller quem voltou com a bola na mala, após passar a adolescência estudando na Inglaterra. E assim se seguiu também em outras regiões sob influência britânica.

Em 1886, a International Board foi criada para unificar as regras entre as federações de Inglaterra, Escócia, Gales e Irlanda. Um passo para a pluralidade que se concretizaria em 1904, com o nascimento da Fifa. Embora a Football Association tenha se mantido distante da federação internacional em seus primeiros anos, a entidade ajudou a organizar o esporte em países com estrutura frágil e recém-independentes. Um fenômeno mundial consolidado nas décadas seguintes e de importância inegável hoje em dia. E que começou na mesa de uma taberna.

 

Willian D’Ângelo – Túnel do tempo

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