Veneza em estado de alerta por nova maré alta

Veneza se preparava para uma nova maré alta sem precedentes em uma semana, após dois episódios que devastaram a cidade italiana, onde foi decretado estado de emergência.

Após uma breve trégua no sábado (16), os serviços meteorológicos preveem uma nova “acqua alta” (maré alta) de 160 cm para o meio-dia de domingo, um nível que permanece perigoso.

Museus como o Guggenheim cogitaram abrir as portas na sexta-feira, mas mudaram de ideia quando observaram as previsões meteorológicas.

“Veneza está devastada. Há danos de 1 bilhão (de euros)”, declarou o prefeito Luigi Brugnaro.

A seleção italiana de futebol visitou a cidade neste sábado como demonstração de solidariedade. “Veneza vai superar isto também. Como um esportista que sofre uma lesão grave, vai se recuperar”, declarou o ex-internacional Gianluca Vialli.

“É impressionante ver isto, caminhar e ter a água na altura dos joelhos”, disse à AFP Oscar Calzada, turista mexicano de 19 anos. O ministro italiano da Cultura, Dario Franceschini, que visitou Veneza para observar os danos, afirmou que as obras de reconstrução serão consideráveis. Ele disse que mais 50 igrejas foram danificadas.

“Perdemos tudo que estava no porão”, lamentou Luciano, funcionário de uma loja na praça de São Marcos.

Veneza, com 50 mil habitantes, recebe a cada ano 36 milhões de turistas, 90% deles estrangeiros. Os hotéis da cidade começaram a registrar cancelamentos nas reservas para as festas de fim de ano.

O prefeito de Veneza anunciou a abertura de uma conta bancária para doações, na Itália ou no exterior, que ajudarão nos trabalhos de reconstrução.

“Veneza, lugar único, é patrimônio do todo o mundo. Graças a sua ajuda, a cidade brilhará de novo”, afirmou Brugnaro em um comunicado.

Os moradores que tiveram as casas danificadas podem pedir uma ajuda governamental imediata de 5.000 euros e os comerciantes podem receber até 20 mil euros.

“Seria pecado não voltar a ver estes lugares, acho que todo o mundo deveria abrir a carteira”, opinou Nicole Righetti, uma turista italiana.

Diana Ramírez, colombiana residente nos Estados Unidos, deu opinião similar. “Vai custar muito dinheiro a Veneza, não é má ideia pedir aos turistas que colaborem”.

Na quinta-feira, o governo do primeiro-ministro Giuseppe Conte aprovou o estado de emergência em Veneza e anunciou a liberação de 20 milhões euros para as obras mais urgentes.

Decretar estado de emergência, um mecanismo bastante usado na Itália, cenário frequente de terremotos, erupções vulcânicas e deslizamentos de terra, dota o governo de “poderes e meios excepcionais”.

Enquanto as autoridades políticas fazem contas e multiplicam as declarações de solidariedade, os moradores de Veneza, mais pragmáticos, organizam a retomada de suas vidas.

“Eu vivo disto, que outra coisa poderia fazer?”, questiona Stefano Gabbanotto, 54 anos, que tem uma banca de jornais diante do Palácio Ducal.

Muitos visitantes parecem não perceber o risco de afundamento na cidade, construída sobre 118 ilhas e ilhotas majoritariamente artificiais e sobre pilares. Em um século, a cidade afundou 30 cm no mar Adriático.

Para o ministro do Meio Ambiente, Sergio Costa, a fragilidade de Veneza aumentou em consequência do que ele chamou de “tropicalização” do clima, com chuvas intensas e rajadas de vento, vinculadas ao aquecimento global.

Os ecologistas também atribuem responsabilidade à expansão do grande porto industrial de Marghera, perto de Veneza, e às viagens de cruzeiros gigantes.

Na terça-feira, a maré submergiu 80% da Veneza histórica, provocou a morte de uma pessoa de 70 anos e o afundamento de gôndolas e ‘vaporetti’, os barcos de transporte público. Diversas autoridades pediram a conclusão o mais rápido possível do projeto de comportas MOSE.

Este plano de engenharia, apresentado em 2003 mas adiado por escândalos de corrupção, consiste em 78 barragens que sobem e bloqueiam o acesso à lagoa em caso de maré alta de até três metros de altura. O primeiro-ministro Conte afirmou que o projeto está pronto “em 93% e será concluído na primavera de 2021”.

Reportagem: Redação Amazônia sem Fronteiras

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